O plástico na pandemia

Há quase cinco anos, quando viralizou um vídeo de pesquisadores removendo um canudo da narina de uma tartaruga, não houve material que sofresse maior escárnio público do que o plástico. Em meia década, as campanhas de conscientização sobre os efeitos perversos da poluição — extremamente necessárias em um cenário de sujeira descontrolada — surtiram efeito. Diversas cidades, em diferentes lugares do mundo, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, aprovaram legislações específicas para banir o plástico de uso único, a exemplo de canudos e talheres descartáveis. Mas o cenário mudou. Com o avanço da pandemia da Covid-19, o material ressurgiu em variados formatos, mas agora como estratégia de proteção. Barreiras físicas em supermercados, protetores faciais, coberturas em máquinas de pagamentos e vedação em pratos de comida, entre muitos outros usos, tornaram o plástico presença cotidiana na crise que estamos vivendo.

Todos os anos, 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos. Cerca de 700 espécies que vivem no mar já foram contaminadas pela poluição e quase todas as aves marinhas ingeriram algum material plástico. Só que agora, a pandemia deu uma trégua à busca obsessiva por eliminá-lo.

Estima-se que, apenas nos Estados Unidos, a produção de uso único aumente entre 250% e 300% em 2020, de acordo com a Associação Internacional de Resíduos Sólidos. O avanço será puxado por produtos de proteção individual, como máscaras, viseiras e luvas

Os plásticos são essenciais para algumas atividades e precisam ser pensados para ter vida útil longa, ou seja, na contramão dos descartáveis. O material não pode ser tratado como vilão, mas as empresas devem oferecer opções mais sustentáveis e os consumidores precisam ter hábitos críticos. No surto, quando o que está em jogo é a vida humana, a avaliação pode ser mais difícil.

Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em maio houve um aumento de 28% na coleta de resíduos recicláveis, como plástico e papelão, no lixo doméstico. O novo desafio é redescobrir em quais situações o material é bem-vindo e as ocasiões em que será, mais uma vez, empregado de forma excessiva.

Para a ONG Oceana, a pandemia trará a discussão sobre separar a importância para fins sanitários e de saúde daquilo que é evitável. O material vai fazer parte da vida pós-pandemia e o momento reforça a necessidade de redução de produção.

À medida que muitas cidades planejam a reabertura e permitem a reaproximação, o plástico tem sido um aliado.

Um exemplo é o caso de idosos que puderam sentir o conforto de um abraço após o distanciamento social graças à proteção que o material é capaz de proporcionar.

O plástico pode ser nocivo para o planeta, mas a pandemia nos mostra que ele também ajuda a proteger a vida

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *